02
jan
11

E, se a criatura superar o criador?

O futuro deve ser sempre melhor. É embalado por esse pensamento que espero que o Governo da presidente Dilma Rouseff me surpreenda. As oportunidades estão à mesa e talvez não tenhamos, num futuro próximo, tantas condições quanto essas postas à disposição do nosso futuro.

Hora de separar os honestos e altruístas dos oportunistas e dissimulados. Hora de monitorar o Congresso e as várias estâncias da Justiça. Hora de cobrar responsabilidade e transparência com gasto público. Temos uma chance de ouro num período virtuoso onde a grande maioria dos economistas prevêem crescimento pelos próximos dois anos.

O Ministério não me empolga e o Congresso menos ainda! Contudo, deposito minhas esperanças na presidente e na possibilidade de que possamos ter boas surpresas com ela. Não creio que supere o criador em carisma porém, quero acreditar na sua capacidade administrativa. 2011 começou!

31
dez
10

O Elefante

Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.

Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.

É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.

Carlos Drummond de Andrade
A Rosa do Povo




notícias, opiniões e alguns palpites!

Em tempos de comunicação virtual, democraticamente, todos tem o que dizer e dizem. Nunca a informação esteve tão disponível e, paradoxa e proporcionalmente, nunca fomos tão ignorantes, fúteis e irresponsáveis. Esse blog se pretende apenas como um registro de algumas passagens dessa viagem.

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